Pequenos pecados: uma visão geral

Dia desses, percorrendo o belíssimo Estuário do jornalista Samarone Lima, deparei-me com um post sobre os pequenos pecados que, diariamente, cometemos. Aquelas coisinhas bestas da vida, que não fazem mal à ninguém. Ou a quase ninguém, somente àquelas [irritantes] pessoas do bem. Entenda, eu disse DO BEM, não DO DEM!

De bate-pronto pensei: “Vou fazer a mesma coisa e listar alguns pecados não capitais da minha vida”. Em meia-hora já eram tantos assuntos que resolvi organizá-los em categorias: Fedelho, Mulheres, Faculdade, Cerveja e Pilantragens & Afins. Nas próximas encarnações desse blog, portanto, compartilharei tais estripulias.

Aliás, por causa desse post do Samarone que passei uma semi-vergonha recentemente. Acho que se encaixaria em Pilantragens & Afins. Lembrando que todas os pequenos pecados serão descritos em frases curtas, apenas com esse me prolongarei um pouco mais:

Precisei ir ao Rio há duas semanas. Como eu não tinha reservado a cadeira, pedi para a moça no check-in alocar-me na janelinha. Assim ficaria mais fácil para jogar o chiclete fora quando estivesse sem gosto. Ela me informou que não tinha, mas como o avião faria escala em Brasília, poderia colocar-me no trecho Brasília-Rio. Aceitei na hora!

Quando o avião chega na capital das Fanfarras, mudo logo para a minha janelinha. Ê felicidade!!! E a felicidade maior veio quando, ao meu lado, vi que alguém tinha deixado algum livro. Não lembro o título, o autor, muito menos a editor. Só sei que o livro tinha uma capa em preto e branco. Ou seria colorido?

Confesso que a minha primeira reação foi agir tal qual uma pessoa do bem: avisar à aeromoça sobre o livro esquecido. Um livro que seria depositado nos achados e perdidos da companhia aérea e que, em curto prazo, serviria de apoio para a marmita proletária. Foi aí que o DEM entrou em cena e, juntamente com a lembrança dos pequenos pecados do Samarone, resolvi investigar um pouco livro.

Abri o objeto de meu desejo e verifiquei que existia uma dedicatória. Li um pouco e em seguida coloquei-o à minha frente. De repente, não mais do que de repente, surge uma simpática gordinha ao meu lado. Olha para o seu acento vazio e para o meu colo ocupado. Em seguida, levanta a sua visão para a minha cara. De pau. Virei-me, passei óleo de peroba nas faces do rosto e disse: “É seu?”. E a simpática rechonchuda disse que sim, com uma cara que pensava sabe lá Deus o quê.

Coitada, deve ter ido ao banheiro e se entalado naquela imensidão de latrina aérea. Enquanto isso, um salafrário tentava cometer mais um pequeno pecado.

Com vergonha, querendo me esconder nos pneus da aeronave, fingi dormir a viagem inteira. Até uns roncos ensaiei.

No hotel, ainda humilhado com a situação, ligo a televisão, começa a propaganda política… e aí me conforto: “E eu com vergonha de um simples pecadinho.”

Finalmente

19 August, 2010 | Avulsos | Sem comentários

Devo perdoar perdidos pedidos de senhas, quando apenas precisa de alguém capacitado da própria Insite / UOL Host para ajustar um probleminha técnico no blog?

Enfim, entre feridos, antipáticos e burros, voltamos à nossa programação anormal.

Semântica é tudo

4 August, 2010 | Avulsos | Sem comentários

Segundo o Wikipedia, a semântica (derivado de sema, sinal) refere-se ao estudo do significado, em todos os sentidos do termo. A semântica opõe-se com frequência à sintaxe, caso em que a primeira se ocupa do que algo significa, enquanto a segunda se debruça sobre as estruturas ou padrões formais do modo como esse algo é expresso (por exemplo, escritos ou falados). Dependendo da concepção de significado que se tenha, têm-se diferentes semânticas. A semântica formal, a semântica da enunciação ou argumentativa e a semântica cognitiva, por exemplo, estudam o mesmo fenômeno, mas com conceitos e enfoques diferentes.

Para ser bem sincero, prefiro simplificar. O PCI, mesmo com todas as Sinonímias, Antonímias e Homonímias, resume: Semântica é o estudo do sentido das palavras de uma língua.

Hoje li uma matéria no G1, com o título Diretor demite Lindsay Lohan de filme. A Lindsay Lohan é essa aí da imagem, com cara que chegou da boate às 8h da manhã, cheia de Red Bull no quengo. Segue parte da matéria do G1:

O diretor disse que “a equipe decidiu demitir a atriz e que uma substituta será divulgada em breve”. Lohan, de 23 anos, interpretaria uma universitária trabalhando em uma ilha deserta. O site TMZ afirmou que a demissão foi provocada pela falta de confiança dos investidores do filme na atriz. Eles acreditam que o fato de ela estar no filme prejudicaria a bilheteria

Mas o que chamou a minha atenção foi o último parágrafo da notícia:

Lindsay Lohan vem enfrentando uma série de problemas pessoais. O último ocorreu há dois dias, quando o seu pai foi com a polícia na casa da atriz para averiguar o bem-estar de sua filha caçula, Ali, de 16 anos. Lohan não estrela em um filme desde 2007.

No mesmo instante iniciei uma contagem: dezessete, dezoito, dezenove… vinte e três!!! Ou a viciada em energético teve o seu último filho com singelos oito anos de idade ou há algo de estranho. Lendo novamente, você supõe o óbvio: Ali, de 16 anos, é irmã da Linda.

Eu sei, estou com sono e poderia ter percebido isso na primeira leitura. Mas não o fiz e odeio precisar pensar.

Tou errado, Krug?

O cinismo do amigo oculto

29 July, 2010 | DesenContos | Sem comentários

- Resolveram fazer um amigo oculto lá na empresa. Cara, há algo mais cínico do que um amigo oculto?

- Tenho um amigo que é funcionário público e recebe R$ 15 mil para trabalhar 4 horas diárias. E nem sempre trabalha “isso tudo”.

- Féla da puta!!! É sério isso? Haja óleo de peroba na cara do cidadão. Mas tudo bem, retirando esse camarada, amigo oculto é o cúmulo do cinismo ou não?

- O nosso governador prometeu quatro hospitais em sua candidatura e só pintou as paredes de dois postos de saúde. O mandato está acabando e o cara está com mais de 70% de aprovação!

- Tás querendo me fuder, Pacheco? Mentira que ele prometeu isso tudo? O cara é tão bonitinho, ia até votar nele novamente.

- Uma gracinha, Soares. Mas na próxima eleição, meu voto é dele. Prefiro ser fudido por um moço apresentável a um velho caindo aos pedações. Concordas?

- Cara, tu é um gênio! Mas vamos focar. Amigo oculto é ou não uma prova de cinismo? Todo ano é a mesma coisa: Ao entregar o presente a pessoa cita características maravilhosas do felizardo. Ano passado mesmo, tirei a vagabunda da Suélen. Não conseguia imaginar em outra loja para comprar…

- Suélen-corremão? Rapaz! Ali é gostosa, hein?

- Sim, a própria bundazuda. Não conseguia pensar em outra loja senão um Sex Shop. Aquela cidadã cheira a sexo! Mas terminei comprando o CD do Zezé di Carmargo & Luciano, afinal…

- Acertasse em cheio! Zezé di Carmago é mais imoral do que qualquer produto vendido em qualquer Sex Shop do Brasil!

- Vai continuar me interrompendo, infeliz? Pois bem, comprei esse maldito CD. E na hora de citar as características? Preparei durante dois dias a minha fala para não cometer nenhuma verdade. Mantive na minha carteira o discurso – entregando um pedaço de papel rabiscado ao Pacheco.

“Minha amiga oculta é cheirosa, está sempre bem arrumada e se relaciona muito bem com todos. Gosta muito de organizar reuniões em seu apartamento, contribuindo assim para o fortalecimento da amizade entre os funcionários da empresa. Malha todos os dias e está sempre de bem com a vida. Está solteira, mas tenho certeza que em breve arrumará um príncipe que cuidará muito bem desse coraçãozinho cheio de amor para dar. Minha amiga oculta é a Suééééélen!”

- Escreveu bonito, hein Soares?

- Pois é! Agora olha o verso do papel. Era o que eu realmente gostaria de ter dito.

“Minha amiga oculta é uma pessoa de chegada. Claro, há 400 metros de distância, você já sente o cheiro forte de seu perfume barato às 9h da manhã. Sim, porque no horário certo essa infeliz nunca chega. Veste-se como uma perua e seu apartamento é mais um bordel, com a quantidade de funcionários da empresa que ela já levou para o abate. Pra mim, ela nunca deu. Também pudera, eu estou na faixa salarial J dessa merda de organização. Para manter essa abundância, malha todos os dias. Entretanto os sinais da idade são notórios e os efeitos da gravidade já estão dando o ar de sua graça. Vai morrer solteira, aposto! Minha amiga oculta é a puta da Suééééélen!”

- Agora sim, reconheço a Suélen em suas palavras. E esse ano, tirasse quem?

- O Patrício. É um garoto, Analista de Sistemas. Fiz um esboço nesse guardanapo sobre a sua descrição para falar antes de entregar o presente:

“Meu amigo oculto é um jovem bastante inteligente e já ganhou a simpatia de todos aqui dentro. Possui uma grande consciência ambiental e adepto a uma dieta macrobiótica. Veste-se naturalmente e o seu gosto musical é refinadíssimo. É um rapaz muito correto em suas atitudes com um futuro promissor dentro da empresa. Meu amigo oculto é o graaande Patrício!”

- Mas Pacheco, esse pirralho é um puta pentelho e já estou com os nervos à flor da pele só em pensar em agradar um cidadão que já entrou na empresa com a faixa salarial F.

Duas semanas se passaram e o dia do amigo oculto, enfim, chegou. Aquele não tinha sido um dos melhores dias para o Soares: Recebera a notícia que sua filha de 15 anos estava grávida de um pai que nem ele mesmo sabe quem é. A fatura de seu cartão crédito havia sido estourada pela sua esposa, mesmo ele lembrando há anos que sua faixa salarial continuara J e, pasmem, a sua sogra acabara de se instalar em sua casa por tempo indeterminado.

Como o Soares não estava com a paciência de Jó para decorar o texto produzido, levou consigo o rascunho daquele almoço com o Pacheco. O amigo oculto dá início e, pra variar, aquela chuva de elogios. “Até a bicha louca do Douglas foi caracterizado como um rapaz alegre e saudável!” – pensou o Soares, espantado com tanto cinismo.

Finalmente chegou o momento do Soares rasgar elogios para o Patrício. Ao retirar do bolso o seu lindo discurso, sentiu um calafrio e a palidez em sua pele já era visível a todos. Restavam duas causas para tal sintoma: Passara o dia fazendo a dieta macrobiótica ou o guardanapo escolhido antes de sair casa não era o de elogios. Como o seu almoço foi banhando por gordas costelas de porco, restava apenas a segunda opção.

Sim, o Soares também havia escrito o discurso da verdade, do anti-cinismo, tal qual fez com Suélen, a puta. Pensou por dois segundos, não mais do que dois segundos qual decisão tomar. Ao lembrar-se do dia de cão que tivera e de toda essa artificialidade que o afetava há anos, resolveu partir para o desespero agradável da verdade e deu início à leitura do guardanapo:

“Antes de tudo, gostaria de tecer um comentário: Essa é uma empresa de merda! Estou aqui há 15 anos e minha faixa salarial ainda é a J, enquanto o filho da puta do meu amigo oculto, que chegou aqui há três meses, já entrou na faixa F. Bom, ele tem uma fala de múmia, olhos esbugalhados e puxados para dentro e aspecto de quem vai desmaiar a qualquer momento. Também pudera, só come folha e grãos e só bebe água descansada. Ao invés de aproveitar a idade e se divertir nos puteiros da vida, gasta os finais de semana lutando contra os ruídos que afetam a vida das baleias na geleiras da Antártica. É um nerd de marca maior, se veste como um mendigo de primeira viagem e só escuta músicas cujas bandas não possuem mais de 100 membros na comunidade do Orkut. Nem precisa dizer que nunca comeu ninguém na vida, mas quem sabe a puta da Suélen não resolve o seu problema? Afinal, a sua faixa salarial é a F. O meu amigo oculto é o donzeeeelo do Patrício!”

Silêncio total entre os funcionários, cortado apenas pelo pranto desenfreado do pobre rapaz que sempre ensaiava um desmaio devido à sua dieta peculiar. Suélen, que de besta não tem nada, o levou para sua casa afim de animar um pouco o rapaz e, devido à sua faixa salarial F, bem capaz do Patrício ter resolvido uma das verdades citadas pelo Soares.

Apesar de concordarem com o discurso (claro, era a mais pura realidade!), todos os demais funcionários banalizaram totalmente a atitude do Soares, em um ato que variava do pseudo-moralismo à puxação de saco dos superiores. A demissão por justa causa foi um dos resultados daquele que seria o último amigo oculto da vida do Soares, que já sentia falta de seu pequeno salário da faixa J.

Após alguns meses procurando emprego sem sucesso, decidiu pleitear um cargo à vereador da grande Epitaciolandia, interior do Acre, decidindo de uma vez por todas entrar no ramo dos cínicos profissionais.

Eu quero o da foto

17 July, 2010 | Avulsos | Sem comentários

Quinta-Feira, sete de janeiro de 2010, onze horas da noite. Você trabalhou que nem um condenado e não jantou ainda. Tudo o que você quer é uma refeição rápida para dormir o quanto antes. E acordar o quanto depois.

Chego na McDonald’s e olho a foto do novo sanduíche: Capricho Italiano.
capricho_italiano

A boca salivou. Esse molho deve ser magnífico. A massão do pão tem uma forma de pura leveza. As verduras fresquinhas devem dar aquele toque final. Um primor de sabor! Um sanduíche suculento, com um aspecto que faz até o mais chato dos vegetarianos desejarem uma pequena mordida. Escondida, é claro!

Com a baba caindo pelas tabelas, peço entusiasmado:

- Um Capricho Italiano. No capricho!

E aí me vem essa merda:
capricho_italiano2

Bom, e aquele suculento molho, cadê? Tá aqui, ó:

capricho_italiano3

Capricho Italiano?!?!? Os habitantes do país da bota não merecem isso. Pavarotti deve estar se revirando no túmulo. Pato, Ronaldinho, Dida, Julio César, Diego e Felipe Melo serão deportados de volta ao Brasil (se bem que o último poderia ficar por lá mesmo). E o mais grave de tudo: não me deixarão comprar aquela Ferrari F50. Desgraçados!!!

É bom pra aprender. Quem manda fazer a única refeição do dia em uma junk food? Certo está meu pai, que sempre diz: “Comida boa é aquela que faz bosta, meu filho!”.

Então tá.

Ela não gosta de cheiro no cangote

14 July, 2010 | DesenContos | Sem comentários

kiss_neck2Bom, eu não gosto de Chocolate. “Mas como uma pessoa não gosta de chocolate?”, “Chocolate é a melhor coisa que já inventaram”, “E a Fantástica Fábrica de Chocolates?”, “E a serotonina?”. Se eu depender de chocolate para que as células do meu cérebro se comuniquem, estou perdido. Vai ver é por isso que sempre começo a fazer uma coisa e nunca termino: é que as células falham na comunicação até o destino final. E até hoje tenho pesadelos com os anões daquele maldito filme!

O meu primo não gosta de pizza. Isso sim, é um despautério! Pizza é que nem sexo: até quando é ruim, é bom! Tenho amigos que passam horas e horas em um rodízio. Calabresa, mussarela, portuguesa, francesa, italiana, israelita, guatemálaca, de brigadeiro, de doce de leite, de brigadeiro e doce de leite. E depois retomam tudo de novo: calabresa, mussarela, portuguesa… Ficam nesse círculo vicioso até a hora que são expulsos e saem rolando da pizzaria. Êêê cambada!

Ok, mas é da família e vamos respeitar o grandissíssimo-filho-da-puta-que-não-gosta-de-pizza.

Ross, personagem do seriado Friends, não gosta de sorvete! “Dói meu dentes”, ele explica enquanto os amigos tentam digerir a informação. Já presenciei quem não gostasse de praia, de cerveja, de massagem, dos Simpsons e até mesmo quem não gostasse do Bush! Caramba, o Bush é o The One fora do Matrix. Aquele esquive da sapatada jornalística foi algo de outro mundo.

Bom, mas vamos ao que interessa.

Tempos atrás, tive um pequeno relacionamento. Uma morena linda: o corpo parecia esculpido por um artista de primeira linha, o seu rostinho angelical criava uma atmosfera impiedosamente perturbante. Era uma avião!

Com um pouco de conversa e bastante cerveja, a timidez calou-se, a intimidade começou a se intrometer e eu, que não sou besta, comecei a me aproveitar. Naqueles afagos embriagados, subitamente, a morena com rosto angelical encosta o ombro no ouvido, fazendo um ar de quem comia um grilo cru pela primeira vez. Intrigado, dei dois passos para trás. Fingi que vi alguém de longe e, com aquele sorriso largo, acenei: “Graande Jorge!”. Quando a morena de corpo esculpido por um artista de primeira linha foi procurar o tal do Jorge, virei o pescoço para o lado direito e prontamente verifiquei, numa fungada alá Maradona, que falta de desodorante não era o motivo do seu ar de pequena irritação.

“Vamos ao segundo round!” – pensei. Antes de chegar em seu pescoço, ela fez novamente aquele movimento, ligando o ouvido ao ombro. Neste exato momento, informei: “Olha, meu Rexona quantum 24h ainda está ativo. O que foi então?”. “É que morro de agonia em beijos no pescoço” – respondeu.

Meu mundo caiu! Tudo bem alguém não gostar de chocolate. Já até admito um ser não se deliciar com uma fatia de pizza ou não achar o Bush um cara do bem, mas uma mulher não gostar de um cheiro no cangote é demais!

E todo o ritual “1. Beijo na bochecha-> 2. Na boca-> 3. No pescoço -> 4. Mão na bunda -> 5. E viva a felicidade…”? Se eu passar direto para a mão na bunda, pulo uma etapa de um processo já estabelecido desde a época da criação do homem! A própria Eva, antes de comer a maçã, passou por um esquente antes. E se lambuzou depois.

Aquela noite foi um tormento. Imaginei fórmulas de pontuação para pular ao estágio 4 sem passar pelo 3. Algo do tipo “Se eu preciso beijar o pescoço 5 vezes para passar a mão na bunda da morena que criava uma atmosfera impiedosamente perturbante, quem sabe beijando a boca 15 vezes eu não consigo a mesma pontuação para atingir a quarta fase?”. Infelizmente, não deu certo.

Tentando acostumá-la com o processo, saímos algumas vezes, sempre em um clima de romance total. Entretanto, faltava algo: chegar ao mestre do jogo. Tentando alcançar o objetivo, invariavelmente precisaria passar pelo estágio 3. Entretanto, a cara de grilo cru era sempre a mesma.

Certo dia, fomos ao cinema. Ao subir a escada rolante do Shopping, como um grande cavalheiro, deixei-a passar na minha frente. Nessa hora, a morena avião arrumou seus cabelos e os arremessou para o lado esquerdo. O lado direito daquele lindo pescocinho estava lá, livre, cheiroso, iluminado! Além disso, eu juro que vi uma seta rodeadas de neon para aquele local que precisava de todo jeito ser explorado. Neste exato momento não me contive em realizar um tratamento de choque, um verdadeiro ataque surpresa para curá-la de todo esse mal: segui meus instintos, abocanhando ferozmente o cangote da menina. Logo após a investida, ela parecia que comia não um grilo, mas um caldeirão de baratas brancas e se tremeu toda, perdendo o equilíbrio e se jogando para trás. Lembrei-me do Bush e me esquivei rapidamente, segurando com as duas mãos o corrimão esquerdo da escada. A morena passou direto, rolando degraus abaixo e, tal qual uma bola de boliche, arrastava os menos ágeis consigo. Vendo toda aquela cena de rolagem de rochas em ribanceiras, em um súbito déjà vu, comecei a escutar a trilha sonora do Indiana Jones: “Tã tã rã rãã, tã tã rãããã…” e torci: “Do chão não passa! Do chão não passa”. E não passou!

Desmaiada e com algumas escoriações, ela e outros três pinos sofriam naquele chão de Shopping. Quando os primeiros socorros chegaram, só escutei os populares: “Quem foi o miserável que causou tudo isso?”. Antes da pergunta terminar, já estava em meu carro, aliviado em saber que a ex-futura dona do meu lar estava em boas mãos.

A última notícia que soube é que minha deusa tinha saído do coma e já respirava sem a ajuda aparelhos. Se não fosse a minha grande agilidade no esquive, eu poderia estar naquela cama do hospital também. E ainda há quem fale mal do Bush.

Nada substitui o talento

failAcabei de assistir à decisão do terceiro lugar da Copa do Mundo. Com discursos totalmente distintos, Uruguai e Alemanha disputam a medalha de bronze. O que seria uma glória para o time sul-americano, não passava de um joguinho sem graça para o antes favorito Alemanha.

No jogo, um Uruguai brigador e uma Alemanha sonolenta. Há quem apostasse no Uruguai, pela vontade de vencer. Mas, como escutamos todos os anos naquele prêmio da Rede Globo, nada substitui o talento. O terceiro gol da Alemanha nem comemorado foi. A união e a garra em um time são importantíssimos dentro de campo. Mas a técnica é essencial.

O time pode ser guerreiro, como aquela cerveja insistia em avisar.

A equipe pode ser unida, como o Dunga falava há torto e há direito em suas coletivas ríspidas.

Os jogadores podem ficar trancafiados em seus quartos, subindo pelas paredes e dando beliscões em azulejos, com saudades do bem bom.

A seleção pode até ter recuperado o orgulho em vestir a canarinha, como muitos jogadores ridiculamente repetiam como um mantra.

Mas levando uns bagres e deixando os craques em casa, definitivamente, não dá.

Entendesse agora, anão de uma figa?

“Tu levou foi chapeuzinho, humilhado, dez a zero!”

No divã do dentista

10 July, 2010 | DesenContos | Sem comentários

aparelhoPor sete anos da minha vida, dos oito aos quinze, meus dentes foram camuflados por barreiras intransponíveis de aço. Pois é, todo esse exagero por simples aparelhos dentais são ocasionados por um passado pouco confortável: bolada na cara nas peladas era sangue transcorrendo aos montes. Inclusive os bancos de sangue da cidade sempre ficavam à beira do campo, esperando mais um ato de cidadania da minha parte. Pior ainda era quando as tiras de aço soltavam, se agarravam em minha bochecha e raspavam meio quilo daquela pele interna. Eram duas semanas das piores aftas. Aliás, pior do que as aftas são os seus remédios. Além de arder horrores, eu tinha a impressão que eles as alimentavam ainda mais. Quem sabe um complô da medicina moderna com os fabricantes de remédios. Vai saber…

Sem falar na mulherada. Todas elas odiavam o meu “beijo de lata”. Bem… na expressão todas, nesses sete anos, entenda-se duas. E uma delas um selinho naquela brincadeira “Caí no poço. Quem me tira? Meu bem!”. A pobre menina teve a infelicidade em me escolher. Após duras penas, deu um selinho e saiu correndo para casa. Aos prantos.

Mas vamos falar da parte boa desse tempo. E ela tem nome e sobrenome: Dr. Calado Fragoso. Dr Calado, além de grande cirurgião-dentista, era um professor do cotidiano, mestre da vida alheia e um sábio da malandragem. Sentado em sua cadeira, sempre me explicava vários assuntos: do cocô à bomba atômica. Era incrível, mas ele sabia de tudo. E o melhor era que eu nem precisava responder. Só escutava. Óbvio, pois não há como manter um diálogo com o seu dentista. Ele fala e você só responde: “arrãmmm”. Com a boca cheia de babas e ferramentas. No máximo um aperto nos olhos, indicando sinal de alegria. Ou arregalando-os, mostrando sinal de surpresa. É como eu sempre digo: para o dentista, o seu consultório é o momento de psicanálise. Do dentista. Um lugar que apenas ele fala e o outro simplesmente concorda. Igualzinho a uma terapia. Mas dessa vez, quem escuta ainda ainda tem que pagar.

Mas com Dr. Calado eu fazia gosto em pagar. Não tinha nenhum remorso em não desviar em video-games o dinheiro pago todos os meses, na saída da consulta. Não houve fase mais produtiva em saber na minha vida do que esse tempo. Se ele fazia uma auto-análise, eu também era beneficiado com isso.

Certo dia, ao começar os procedimentos, ele pergunta: “Viu aquela menininha na sala da recepção?”. Dei duas piscadas nos olhos, indicando sim (aprendi isso em algum filme). E ele continuou (acho que viu o mesmo filme também): “Ela é uma menina extraordinária”. Na hora pensei: “Opa! Dr. Calado quer dar uma forcinha no pega-ninguém aqui”. E prosseguiu: “É bonita, de uma boa família, bastante educada. Só tem apenas um defeito…”. Na minha mente só veio que ela tinha um bafo do cacete. Para mim, isso era o de menos. Halls está aí pra isso. Mas o defeito, infelizmente, não era esse: “Ela é muito inteligente” – e continuou – “Mulher inteligente dá um trabalho da porra!”.

Fiquei com aquilo na minha cabeça por anos até descobrir, na pele, que ele estava certo mais uma vez. Os relacionamentos viraram verdadeiras catástrofes com todas as mulheres inteligentes com quem me relacionei. Ora vinham discutir o que aquela banda irlandesa quis dizer naquele trecho da música, ora se irritavam com meus erros de português. Algumas vezes colocavam-me na parede com questionamentos que eu só entendia a interrogação. Outras, nem me perguntavam porque sabiam que o meu intelecto não daria conta do recado. Uma delas, certa vez, irritou-se demasiadamente (foi assim que ela se expressou) ao ser perguntada o que eu achava sobre a crise política que se alastrava em todo continente asiático. E, óbvio, dei a resposta padrão: “A culpa é do FHC”. Outra, em uma Discussão de Relacionamento (a famosa D.R.), indagou o seguinte: “O seu ponto de vista parte de uma premissa totalmente equivocada, tornando nulo qualquer argumento posterior que você venha a tecer.”. “Fudeu!”, foi a única resposta que pude “tecer”.

Só de picuinha, tentei várias vezes ir contra os ensinamentos do meu grande dentista. Quebrei a cara em todas as tentativas.

Quanto mais você envelhece, mais culpa, dúvidas, loucuras, mulheres inteligentes e todas essas baboseiras vão recheando a sua mente infeliz. Minha recomendação é sempre essa: para problemas pequenos, uma simples obturação pode resolver. Um pouco maiores, quem sabe um canal? Agora para aquelas cabeludas, tente um aparelho ortodôntico. Todos os seus problemas se resolverão e, de brinde, você ganhará dentes fortes, lindos e refrescantes. E viva o Dr. Calado!

E assim (re-re)começamos

5 July, 2010 | Avulsos | Sem comentários

Pera aê, pera aê, pera aê! Nós nunca tivemos preconceitos, dogmas, dobermanns, dálmatas, pointer, sisters, brothers, croisbe, Still, Nash, Young, talvez Lennon, Mccartney, talvez…

“Mas… realmente?”