- Resolveram fazer um amigo oculto lá na empresa. Cara, há algo mais cínico do que um amigo oculto?
- Tenho um amigo que é funcionário público e recebe R$ 15 mil para trabalhar 4 horas diárias. E nem sempre trabalha “isso tudo”.
- Féla da puta!!! É sério isso? Haja óleo de peroba na cara do cidadão. Mas tudo bem, retirando esse camarada, amigo oculto é o cúmulo do cinismo ou não?
- O nosso governador prometeu quatro hospitais em sua candidatura e só pintou as paredes de dois postos de saúde. O mandato está acabando e o cara está com mais de 70% de aprovação!
- Tás querendo me fuder, Pacheco? Mentira que ele prometeu isso tudo? O cara é tão bonitinho, ia até votar nele novamente.
- Uma gracinha, Soares. Mas na próxima eleição, meu voto é dele. Prefiro ser fudido por um moço apresentável a um velho caindo aos pedações. Concordas?
- Cara, tu é um gênio! Mas vamos focar. Amigo oculto é ou não uma prova de cinismo? Todo ano é a mesma coisa: Ao entregar o presente a pessoa cita características maravilhosas do felizardo. Ano passado mesmo, tirei a vagabunda da Suélen. Não conseguia imaginar em outra loja para comprar…
- Suélen-corremão? Rapaz! Ali é gostosa, hein?
- Sim, a própria bundazuda. Não conseguia pensar em outra loja senão um Sex Shop. Aquela cidadã cheira a sexo! Mas terminei comprando o CD do Zezé di Carmargo & Luciano, afinal…
- Acertasse em cheio! Zezé di Carmago é mais imoral do que qualquer produto vendido em qualquer Sex Shop do Brasil!
- Vai continuar me interrompendo, infeliz? Pois bem, comprei esse maldito CD. E na hora de citar as características? Preparei durante dois dias a minha fala para não cometer nenhuma verdade. Mantive na minha carteira o discurso – entregando um pedaço de papel rabiscado ao Pacheco.
“Minha amiga oculta é cheirosa, está sempre bem arrumada e se relaciona muito bem com todos. Gosta muito de organizar reuniões em seu apartamento, contribuindo assim para o fortalecimento da amizade entre os funcionários da empresa. Malha todos os dias e está sempre de bem com a vida. Está solteira, mas tenho certeza que em breve arrumará um príncipe que cuidará muito bem desse coraçãozinho cheio de amor para dar. Minha amiga oculta é a Suééééélen!”
- Escreveu bonito, hein Soares?
- Pois é! Agora olha o verso do papel. Era o que eu realmente gostaria de ter dito.
“Minha amiga oculta é uma pessoa de chegada. Claro, há 400 metros de distância, você já sente o cheiro forte de seu perfume barato às 9h da manhã. Sim, porque no horário certo essa infeliz nunca chega. Veste-se como uma perua e seu apartamento é mais um bordel, com a quantidade de funcionários da empresa que ela já levou para o abate. Pra mim, ela nunca deu. Também pudera, eu estou na faixa salarial J dessa merda de organização. Para manter essa abundância, malha todos os dias. Entretanto os sinais da idade são notórios e os efeitos da gravidade já estão dando o ar de sua graça. Vai morrer solteira, aposto! Minha amiga oculta é a puta da Suééééélen!”
- Agora sim, reconheço a Suélen em suas palavras. E esse ano, tirasse quem?
- O Patrício. É um garoto, Analista de Sistemas. Fiz um esboço nesse guardanapo sobre a sua descrição para falar antes de entregar o presente:
“Meu amigo oculto é um jovem bastante inteligente e já ganhou a simpatia de todos aqui dentro. Possui uma grande consciência ambiental e adepto a uma dieta macrobiótica. Veste-se naturalmente e o seu gosto musical é refinadíssimo. É um rapaz muito correto em suas atitudes com um futuro promissor dentro da empresa. Meu amigo oculto é o graaande Patrício!”
- Mas Pacheco, esse pirralho é um puta pentelho e já estou com os nervos à flor da pele só em pensar em agradar um cidadão que já entrou na empresa com a faixa salarial F.
Duas semanas se passaram e o dia do amigo oculto, enfim, chegou. Aquele não tinha sido um dos melhores dias para o Soares: Recebera a notícia que sua filha de 15 anos estava grávida de um pai que nem ele mesmo sabe quem é. A fatura de seu cartão crédito havia sido estourada pela sua esposa, mesmo ele lembrando há anos que sua faixa salarial continuara J e, pasmem, a sua sogra acabara de se instalar em sua casa por tempo indeterminado.
Como o Soares não estava com a paciência de Jó para decorar o texto produzido, levou consigo o rascunho daquele almoço com o Pacheco. O amigo oculto dá início e, pra variar, aquela chuva de elogios. “Até a bicha louca do Douglas foi caracterizado como um rapaz alegre e saudável!” – pensou o Soares, espantado com tanto cinismo.
Finalmente chegou o momento do Soares rasgar elogios para o Patrício. Ao retirar do bolso o seu lindo discurso, sentiu um calafrio e a palidez em sua pele já era visível a todos. Restavam duas causas para tal sintoma: Passara o dia fazendo a dieta macrobiótica ou o guardanapo escolhido antes de sair casa não era o de elogios. Como o seu almoço foi banhando por gordas costelas de porco, restava apenas a segunda opção.
Sim, o Soares também havia escrito o discurso da verdade, do anti-cinismo, tal qual fez com Suélen, a puta. Pensou por dois segundos, não mais do que dois segundos qual decisão tomar. Ao lembrar-se do dia de cão que tivera e de toda essa artificialidade que o afetava há anos, resolveu partir para o desespero agradável da verdade e deu início à leitura do guardanapo:
“Antes de tudo, gostaria de tecer um comentário: Essa é uma empresa de merda! Estou aqui há 15 anos e minha faixa salarial ainda é a J, enquanto o filho da puta do meu amigo oculto, que chegou aqui há três meses, já entrou na faixa F. Bom, ele tem uma fala de múmia, olhos esbugalhados e puxados para dentro e aspecto de quem vai desmaiar a qualquer momento. Também pudera, só come folha e grãos e só bebe água descansada. Ao invés de aproveitar a idade e se divertir nos puteiros da vida, gasta os finais de semana lutando contra os ruídos que afetam a vida das baleias na geleiras da Antártica. É um nerd de marca maior, se veste como um mendigo de primeira viagem e só escuta músicas cujas bandas não possuem mais de 100 membros na comunidade do Orkut. Nem precisa dizer que nunca comeu ninguém na vida, mas quem sabe a puta da Suélen não resolve o seu problema? Afinal, a sua faixa salarial é a F. O meu amigo oculto é o donzeeeelo do Patrício!”
Silêncio total entre os funcionários, cortado apenas pelo pranto desenfreado do pobre rapaz que sempre ensaiava um desmaio devido à sua dieta peculiar. Suélen, que de besta não tem nada, o levou para sua casa afim de animar um pouco o rapaz e, devido à sua faixa salarial F, bem capaz do Patrício ter resolvido uma das verdades citadas pelo Soares.
Apesar de concordarem com o discurso (claro, era a mais pura realidade!), todos os demais funcionários banalizaram totalmente a atitude do Soares, em um ato que variava do pseudo-moralismo à puxação de saco dos superiores. A demissão por justa causa foi um dos resultados daquele que seria o último amigo oculto da vida do Soares, que já sentia falta de seu pequeno salário da faixa J.
Após alguns meses procurando emprego sem sucesso, decidiu pleitear um cargo à vereador da grande Epitaciolandia, interior do Acre, decidindo de uma vez por todas entrar no ramo dos cínicos profissionais.